O que a cadeia da manteiga de karité em Gana nos ensina sobre rastreabilidade e dignidade humana

Grupo de mulheres reunidas durante visita à cadeia produtiva do karité em Gana

Ignorar a realidade dos outros é um mecanismo sofisticado da autopreservação humana.

As cadeias produtivas geralmente têm um brilho na ponta e um silêncio pesado na base. É muito conveniente comprar nosso vinho, chocolate ou cosmético sem se importar sobre todo o trabalho e sacrifícios por trás.

A convite do Prof. Dr. Albert Boaitey, da Newcastle University (Reino Unido), e em uma parceria intermediada pelo Prof. Dr. Augusto Alvim e pela PUCRS – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, eu e Levi Trevisan viajamos para Gana, na Savana Subsaariana. Representando a ELYSIOS, participamos de uma pesquisa técnica sobre a cadeia produtiva da manteiga de karité em Gana (Shea Butter).

Equipe da ELYSIOS com participantes da visita ao centro de processamento de karité em Gana
Participantes da visita ao centro de processamento.

A Dinâmica Social na Savana

Para compreender o contexto onde a Shea Seed é extraída, é preciso olhar para os dados socioeconômicos de Gana em comparação com o Brasil. Segundo o Banco Mundial, o PIB per capita de Gana foi de US$ 2.390,80 em 2024, e a expectativa de vida era de 65 anos em 2023. Esses indicadores ajudam a situar a realidade econômica, mas não substituem o contato com as comunidades.

Por outro lado, Gana apresenta um contraste notável na segurança: dados de homicídios do Banco Mundial indicam uma taxa bem menor que a brasileira. Esse contraste se refletiu na nossa experiência: a sensação de paz foi palpável no comportamento amigável e respeitoso das pessoas que encontramos.

Nesse cenário de escassez econômica, mas de notável paz social, a colheita e o beneficiamento do karité envolvem cerca de 1 milhão de mulheres no norte de Gana. A atividade responde por uma clara divisão de papéis dentro de cada comunidade:

  • Os homens detêm a posse das terras, decidem sobre o uso do solo, caçam e cultivam as lavouras anuais (milho, mandioca, amendoim).
  • As mulheres cuidam das crianças, caminham longas distâncias sob o sol para coletar as sementes na savana, carregam os cestos pesados e realizam o beneficiamento.

Apesar do esforço físico exaustivo, essa divisão representa, na organização local, a função de menor risco direto diante das ameaças da savana e da caça.

Inovação Agrícola no Campo

A árvore de Karité (Vitellaria paradoxa) cresce de forma nativa e selvagem, dispersa por milhares de hectares na savana. Na natureza, um pé tradicional pode levar até 20 anos para começar a dar os primeiros frutos, o que historicamente desincentivou o plantio ordenado.

Área verde de cultivo de mudas de karité no norte de Gana
Área de produção de mudas observada durante a missão.

Durante a missão, visitamos um viveiro de Shea fruto da parceria entre a ONU e a Global Shea Alliance (GSA), financiado pelo Green Climate Fund e executado pela Forestry Commission of Ghana.

Lá, vimos a aplicação prática da propagação clonal por enxertia precoce. Ao usar um ramo de planta madura em uma muda jovem, o projeto busca reduzir o início da frutificação, que pode levar de 15 a 20 anos na natureza, para 5 a 7 anos, segundo o PNUD. A inovação pode apoiar o adensamento, a produtividade e a recuperação de áreas degradadas na região.

Participantes da missão em visita a área de cultivo de karité em Gana
Visita técnica à área de cultivo durante a missão.

Um desafio deles é engajar as comunidades para terem o olhar de longo prazo para plantar as árvores e garantir a expansão e melhor viabilidade econômica da produção futura.

Apesar de representar uma fração modesta do PIB nacional de Gana — dominado por ouro, cacau e petróleo —, o karité é a principal engrenagem econômica do PIB regional do Norte do país.

  • Produção nacional: segundo o PNUD, Gana produz entre 130 mil e 150 mil toneladas de nozes de karité por ano.
  • Valor econômico: o mesmo levantamento estima o valor anual do setor em cerca de US$ 118 milhões.
  • Mercados Importadores: Bélgica, Malásia, Países Baixos, França e Estados Unidos absorvem o volume para abastecer as indústrias cosmética e alimentícia (onde a gordura de karité substitui a manteiga de cacau).
Embalagens de manteiga de karité apresentadas durante a visita técnica em Gana
Produtos de karité apresentados durante a missão em Gana.

Estudo de Caso: Diferença de realidades entre empresas de Tamale

Durante as visitas técnicas às unidades de beneficiamento guiadas pela University for Development Studies (UDS) — onde fomos recebidos pelo Reitor Prof. Paul —, pudemos ver realidades muito diferentes. A maioria dos locais visitados apresentavam condições insalubres, com animais e crianças circulando livremente em meio à produção e ambos fazendo suas necessidades fisiológicas em qualquer lugar.

Equipe da missão técnica em encontro com profissionais locais em Gana
Encontro técnico durante a pesquisa sobre a cadeia do karité.

Em meio aos desafios do setor, um exemplo de excelência se destacou: a visita ao Bandisugluo Shea Processing Center, fundado e liderado pela sra. Rita Dampson.

A Rita é uma empreendedora exemplar que começou com recursos reduzidos e construiu uma estrutura própria de beneficiamento de Shea Seed em Shea Butter. Sua empresa atua em parceria com a Bandisugluo Shea Cooperative, uma cooperativa pertencente às próprias mulheres coletoras da comunidade. A empresa de Rita sedia o projeto, adquire a matéria-prima e contrata essas coletoras.

Ao entrar na unidade da Rita, o contraste com a informalidade do setor foi imediato:

Interior de unidade de beneficiamento de karité visitada em Gana
Estrutura de beneficiamento visitada pela equipe.
  • Padronização e Segurança: Ambientes organizados, trabalhadoras utilizando uniformes e Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).
  • Qualidade e Higiene: Processos produtivos estruturados sob rigorosos padrões de higiene.
  • Impacto Social Real: Programas ativos de saúde, vacinação e aperfeiçoamento técnico contínuo para as colaboradoras.

Entre os locais que visitamos, a unidade liderada pela sra. Rita Dampson se destacou pela certificação Fair Trade (Comércio Justo). A certificação envolve auditorias de critérios sociais, ambientais e econômicos aplicáveis aos produtos certificados.

Sacos de matéria-prima e área de processamento de karité em Gana
Área de processamento e armazenamento de karité.

Quando não há transparência e rastreabilidade na cadeia, a maior fatia do valor agregado fica retida nas etapas finais de refino e distribuição nos países ricos, deixando a base da cadeia desprovida de infraestrutura básica.

Nozes de karité secando em área aberta de unidade de processamento em Gana
Etapa de secagem das nozes de karité.

O selo Fair Trade, somado a certificações orgânicas e a iniciativas de rastreabilidade da Global Shea Alliance, pode ajudar a tornar mais transparentes as relações comerciais e a fortalecer a base da cadeia. A proteção das árvores nativas também importa diante do desmatamento para a produção de carvão vegetal (charcoal).

A Consciência Nasce do Contraste de Experiências

Carl Jung ensina que "toda consciência advém do contraste de experiências". Ver a distância entre o produto final de luxo e a rotina de campo na África transforma nossa visão sobre nossa responsabilidade como consumidores.

A transparência da cadeia de fornecedores agrícolas é uma jornada contínua. Cada empresa deve aplicar boas práticas com seus fornecedores e meio ambiente, respeitando sua capacidade e momento.

Qualificar a cadeia de produtores é uma responsabilidade que as indústrias precisam assumir. Do outro lado, nós, como consumidores, devemos nos tornar mais conscientes, curiosos e exigentes sobre a origem do que compramos. Precisamos valorizar ($$) e adquirir somente de empresas que mostram estes esforços.

A verdadeira sustentabilidade não está no apelo da embalagem, fotos bonitas ou afirmações genéricas, mas no respeito presente em sua base e comprovado por certificações e rastreabilidade.

Para continuar a leitura

Entenda como funciona a rastreabilidade de alimentos e conheça o Caderno de Campo Digital DEMETRA, que ajuda a organizar registros e evidências da produção agrícola.

Fontes de contexto: Banco Mundial; PNUD sobre a cadeia do karité em Gana (2026); PNUD sobre enxertia e mulheres na cadeia (2023); Fairtrade International sobre certificação.

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