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Citros: como manter a qualidade da colheita até o consumidor?

Costuma-se dizer que ‘quem vê cara, não vê coração’, mas no mercado de alimentos, principalmente relacionado às frutas, a aparência importa muito! E se você sonha em exportar seus produtos e assim aumentar seu lucro, precisa dar ainda mais atenção ao aspecto externo dos frutos e sua qualidade sanitária. 

A aparência é um dos atributos de qualidade mais importantes! Veja 5 pontos relacionados a ela:

1) Tamanho: É um critério de classificação, os lotes precisam ter o mesmo padrão, para atender a expectativa do consumidor e facilitar as operações de manuseio e embalagem. 

2) Forma: A forma do fruto ajuda na distinção entre cultivares. 

3) Cor: É o resultado da presença de diferentes pigmentos na epiderme, diferenças entre espécies e cultivares. 

4) Brilho: Realça a aparência externa do fruto. 

5) Defeitos internos e externos: Reduzem a qualidade e o valor comercial do produto.

 

Mas por que priorizar a qualidade e como isso afeta o seu bolso?  

Imagine a seguinte situação: Você plantou uma muda, cuidou contra ataques de doenças, insetos e outros animais, adubou e irrigou, esperou ela crescer, podou, investiu tempo e dinheiro. Então, você vê os primeiros frutos surgindo, você irriga, aplica defensivos agrícolas, e novamente investiu tempo e dinheiro. Finalmente, chegou a época da colheita! Hora de receber os resultados de tanto trabalho duro! Você contrata colhedores, maquinários e equipamentos, novamente, investiu tempo e dinheiro. 

E se nesse momento, o colaborador não estiver treinado, a tesoura estiver estragada, o pomar cheio de frutos doentes, às sacolas de colheita furadas, às caixas quebradas. O que aconteceria? Todo seu tempo e dinheiro investidos nos frutos, seriam desperdiçados. Você bem sabe que calor extremo, seca, granizo, geadas e chuvas intensas, podem acontecer de forma inesperada, e causar perdas de produção, e isso você não pode controlar. Então faça sua parte, se prepare, e não tolere perdas durante a colheita. 

Como realizar a colheita tendo como foco a qualidade e a redução de perdas? Veja a seguir.

Colheita

Tudo inicia na escolha do momento certo para colher! As mudanças nas características visuais dos frutos são indicativos do que chamamos de ponto de colheita. Também é importante considerar qual a destinação final, consumo in natura ou industrialização.

Mas um lembrete importante: Os frutos a serem colhidos, mesmo que sejam para elaboração de óleos essenciais, devem estar sem a presença de resíduos de defensivos agrícolas, sendo assim atente-se ao período de carência, também conhecido como intervalo de segurança dos produtos! Para saber onde encontrar essas informações na bula dos defensivos agrícolas, acesse o post “Você conhece o rótulo e a bula dos defensivos agrícolas?”

1.Deve-se realizar a colheita nas horas mais frescas do dia, para evitar que os frutos estejam com molhamento causado pelo orvalho, que fica sob eles nas primeiras horas da manhã, ou após a chuva, pois os frutos terão maior incidência de podridão pós colheita. Também, os frutos não devem ter contato com o solo e não devem ficar expostos por muito tempo ao sol após colhidos. 

2.A colheita é realizada em duas etapas, na primeira, faz-se um corte, para retirar o fruto do galho, e na segunda, corta-se o pedúnculo rente ao cálice do frutos, que pode vir a perfurar a casca de outros frutos e facilitar danos por fungos e insetos. O colaborador que realizar a colheita deve estar com as mãos limpas e as unhas aparadas, para evitar contaminação e danos nos frutos.

3.Os frutos colhidos são colocados em sacolas de colheita ou caixas de madeira, que devem estar limpas e adequadas para transporte de citrus, não devem estar excessivamente cheias ou quebradas para evitar perdas durante o transporte.  

(Fonte: Adaptado dos autores).

Os frutos devem ir para o resfriamento rapidamente, isso reduz o metabolismo e prolonga a vida pós colheita. Pois, o objetivo na colheita é que os frutos cheguem ao consumidor mantendo as características originais. 

Para que você consiga realizar a colheita de forma escalonada e organizada, sem deixar nada para trás, confira 5 benefícios de utilizar o caderno de campo digital, a plataforma Demetra pode te auxiliar a organizar seu pomar em setores com diferentes características de manejo e assim otimizar sua colheita e produção. 

Quais frutos devem ser colhidos em separado?

Conforme a Instrução Normativa n 69/18, Art. 5 Os produtos hortícolas devem apresentar os seguintes requisitos mínimos de qualidade, observada a especificidade da espécie: 

I – inteiros;
II – limpos; 
III – firmes;
IV – isentos de pragas visíveis a olho nu;
V – fisiologicamente desenvolvidos ou apresentando maturidade comercial;
VI – isentos de odores estranhos;
VII – não se apresentarem excessivamente maduros ou passados;
VIII – isentos de danos profundos;
IX – isentos de podridões;
X – não se apresentarem desidratados ou murchos;
XI – não se apresentarem congelados;
XII – isentos de distúrbios fisiológicos;

Para que se tenha essa qualidade exigida, os frutos doentes, com danos mecânicos e que estão no chão não devem ser colhidos junto com os outros frutos sadios. Portanto, se durante a colheita ocorreram danos mecânicos, como cortes nos frutos. Durante o armazenamento, esses cortes podem ser uma porta de entrada para pragas. E se frutos doentes, foram mantidos nos lotes, eles irão espalhar a doença para outros frutos. Isso afeta o tempo de vida na prateleira! Por isso, esses frutos danificados precisam ser colhidos separados. Confira algumas fotos de frutos que devem ser colhidos em separado, no recorte retirado do manual de classificação dos citros.

Fonte: Programa brasileiro para a modernização da horticultura, 2011).

A qualidade do fruto durante o armazenamento, é influenciada pelas práticas realizadas no campo. Portanto, algumas doenças se iniciam ainda no pomar, por isso é importante conhecê-las e saber como controlá-las, queira conferir mais informações no post 10 pragas e doenças que ocorrem em citros e como controlá-los.

 

Pós colheita

Este é o período entre a colheita e o consumo. Neste momento podem ocorrer perdas em caso de armazenamento e transporte inadequado, excesso de maturação e podridões.

Você sabe quais são as etapas da pós colheita?

A área “suja”, recepção, lavagem, seleção e descarte, e que devem ser fisicamente separadas das outras áreas, principalmente da embalagem e armazenamento. 

1 Recepção: Os lotes serão identificados quanto a sua procedência para fins de rastreabilidade. Amostragens são retiradas para a avaliação de qualidade. 

2 Lavagem: A lavagem dos frutos, para eliminar possíveis microrganismos patogênicos ao consumidor, deve ser feita utilizando produtos neutros, específicos para a cultura ou sanitizantes que estiverem de acordo com a legislação. 

3 Seleção: São descartados os frutos danificados, doentes, e que tenham ratio baixo (que é a relação entre o teor de sólidos solúveis, °Brix, e o teor de ácidos tituláveis) que determinam o estágio de maturação das frutas, determinando o balanço do sabor doce e ácido.  

4 Classificação: São informações que determinam lotes com categorias e características iguais, e estarão nos rótulos das embalagens. Essa prática é muito importante para a unificação da linguagem de mercado e redução de perdas, além de que podem ser usadas para certificações.   

5 Embalagem: Devem seguir as instruções normativas da ANVISA.

6 Armazenamento: Importante para manter o produto com qualidade. Confira em detalhes no toṕico ‘Armazenamento’.

O uso correto dos defensivos no pós colheita deve ser muito criterioso, pois alguns ingredientes ativos já estão obsoletos, após muito tempo de uso, outros possuem composição mais moderna e eficiente, e outros foram retirados de mercado por questões de saúde pública. Portanto, apenas devem ser usados, os produtos prescritos por um agrônomo, com baixa toxicidade, sempre atentando ao período de carência, respeitando as dosagens na bula, e devem ser mantidos registros de uso. Assim não terão resíduos, e o produto estará apto a comercialização e a exportação. 

Armazenamento

O armazenamento correto irá evitar que os frutos fiquem “passados” ou velhos e que estraguem antes da comercialização! 

Pré resfriamento é o resfriamento do fruto antes de armazená-lo em baixa temperatura. A refrigeração é essencial para reduzir o metabolismo do fruto, manter a qualidade e aumentar a vida pós colheita. O pré resfriamento é para retirar o chamado “calor do campo” que o fruto possui após a colheita. É importante que ele seja acompanhado do posterior armazenamento refrigerado, para manter a cadeia de frio. 

O período, a temperatura e umidade no armazenamento variam entre os citros, por exemplo, a laranja em geral, pode ser armazenada por três a oito semanas, com temperatura de 3 a 9°C e umidade relativa do ar de 85 a 90%, já a bergamota pode ser armazenada por duas a quatro semanas, de 4 a 7°C de temperatura e com 90 a 95% de umidade relativa do ar. Além do mais, temperaturas fora do ideal, como por exemplo, abaixo de 5°C podem causar danos denominados de pitting, que são pequenas manchas, deprimidas e escuras. 

A baixa temperatura irá reduzir a respiração e a transpiração dos frutos, além de evitar o desenvolvimento de microrganismos. A umidade relativa do ar ideal irá evitar que os frutos percam água, assim será mantido o frescor do fruto, evitando murchamentos, além de preservar o brilho da casca. Pode ser utilizado atmosfera controlada (AC) e atmosfera modificada (AM), por meio do controle da concentração de gases, O2 e CO2, para reduzir a taxa respiratória dos frutos e atrasar o envelhecimento deles.

Limpeza de equipamentos

Não apenas o maquinário e as tesouras utilizadas na colheita devem ser higienizadas, mas também os equipamentos e máquinas que estão no packinghouse ou na casa de embalamento. Principalmente, porque é ali que estarão restos culturais, como frutos e folhas de outros lotes, que podem conter pragas. A limpeza de câmara fria, embalagens, local de trabalho e trabalhadores, também é importante!

A limpeza dos equipamentos, os cuidados na colheita e pós colheita e durante o armazenamento, irão garantir que as perdas sejam reduzidas, veja quais são os tipos de perdas que podemos encontrar. 

Tipos de perdas

Perda quantitativa: São referentes ao peso do fruto e refletem diretamente na remuneração. Pode ocorrer por desidratação, podridões ou senescências. 

Perda qualidade: É a redução do padrão de qualidade, existem classificações de qualidade de frutos, os de melhor qualidade são melhor remunerados.

Perda nutricional: Quando a atividade metabólica do fruto é alta devido ao armazenamento inadequado, ocorre a redução do teor de vitaminas, lipídeos e proteínas.

Perda sensorial: Se dá em função das alterações na textura, relação ácido/açúcares e perda de aroma pelo armazenamento inadequado.  

Confira como às ‘Boas práticas’ podem ajudar a reduzir as perdas:

Boas práticas 

O que são as ‘boas práticas’? São uma série de ações que garantem o conforto do trabalhador, a saúde e a higiene do sistema. Além de resultarem em aumento da produtividade!

Algumas práticas não são recomendadas durante o manuseio de frutas, atente-se a elas:

  • Manuseio excessivo.
  • Acessórios quebrados ou estragados (caixas e ferramentas).
  • Limpeza e higiene deficientes.
  • Desconhecimento da qualidade microbiana da água.
  • Acessos mal conservados (estradas), ausência de local específico para agroquímicos.
  • Deficiência no uso de EPI.

Algumas formas de melhorar a qualidade dos frutos são por meio da construção de um local específico para agroquímicos, implementação de registro de preparo e uso de agroquímicos, reduzir o manuseio dos frutos, investir na conscientização e capacitação dos colaboradores e programar limpeza e manutenção de instalações e equipamentos. 

Confira os casos de sucesso, que por utilizar a plataforma demetra conseguiram aumentar a produtividade e melhorar a qualidade da produção, seguindo as boas práticas agrícolas, tendo a organização e digitalização de dados como base!

Referências 

Citricultura do Rio Grande do Sul. Indicações técnicas. EFROM, C. F. S; SOUZA, P. V. D de. Secretaria da Agricultura, Pecuária e Irrigação (SEAPI), 2018.

 

Fisiologia Pós-Colheita em Fruticultura ANESE, R. O; FRONZA, D. Colégio politécnico, UFSM, 2015.

 

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