Quais são os principais desafios e oportunidades da produção vitivinícola na Serra Gaúcha

A vitivinicultura é um setor de produção que compreende a elaboração de vinhos finos, vinhos espumantes, vinhos de mesa, suco de uva e uvas para consumo. Semelhante a demais setores que compõem o agronegócio mundial, este setor vem aprimorando-se em práticas de manejo, gestão e tecnologias.

A região Sul historicamente possui a produção de uvas em sua cultura, sendo a maior  produtora do Brasil, com 55.501 hectares cultivados e uma produção de 950.230 toneladas na última safra (IBGE, 2021), representando quase 60% da produção nacional. Na região da Serra Gaúcha se encontram 80% das propriedades vitícolas no Rio Grande do Sul. Em 2019, o segmento de vinhos e sucos nacionais movimentou R$ 9,25 bilhões e o segmento da cadeia brasileira da uva para consumo in natura atingiu RS 9,29 bilhões.

Ao longo dos anos, ocorreram diversos avanços no setor devido ao aumento da competitividade no mercado internacional, com a implementação de certificações de produção integrada ou orgânica, Programa Alimento Seguro, Indicações Geográficas e de Procedência, assim como a Rastreabilidade dos produtos. A profissionalização das propriedades vitivinícolas com a adoção de práticas de manejo mais sustentáveis foi o que possibilitou o crescimento em qualidade e quantidade das uvas no Rio Grande do Sul. 

 Como o produtor já deve saber, a vitivinicultura enfrenta hoje diversos DESAFIOS desde a produção até a comercialização, como:

1. Condições ambientais e doenças da videira

Eventos como geadas, alta pluviosidade, secas ou granizos juntamente com o aparecimento de doenças tanto na parte aérea, como o Míldio ou no solo, como a Pérola da Terra, acabam prejudicando o rendimento e a qualidade dos vinhedos em alguns momentos.

2. Baixos preços pagos aos produtores pela uva para processamento

O preço mínimo da uva industrial na safra 2020/2021 foi de R$ 1,10/kg, valor abaixo do necessário para cobrir custos de insumos, manutenção dos vinhedos e garantir o pro labore da família produtora. Na safra 2021, por exemplo, houve tanta oferta de uva que algumas vinícolas não conseguiram absorver toda a produção e algumas não pagaram o preço mínimo estabelecido em Lei.

3. Alta carga de impostos sobre os vinhos e espumantes;

Demanda histórica do setor pela redução de impostos cobrados aos produtos nacionais que hoje podem chegar a até 54%. Visando aumento da competitividade com produtos importados, algumas associações ou frentes parlamentares têm trabalhado para melhorar as condições do setor e para diminuir a carga tributária. Em muitos países o vinho é considerado um alimento e por isso tem menos taxas, diferente do Brasil.

4. Poucas políticas públicas para o setor;

É necessário para a maior competitividade no mercado, políticas governamentais em conjunto com Instituições de Pesquisa para direcionamento do produtor e do setor; 

5. Alta concorrência com produtos importados

Itens importados representam grande parte do mercado de vinhos consumidos elaborados com Vitis vinifera no país, desafiando os produtores locais a crescerem no mercado nacional, pois o consumidor muitas vezes valoriza mais o produto do exterior.

6. Baixo consumo dos brasileiros em relação a outras bebidas alcoólicas; 

No Brasil, o consumo per capita de vinhos é baixo. Em média, o brasileiro consumiu 2,6 litros de vinho em 2020, um crescimento de 18% comparado a 2019, o que é uma ótima notícia para o setor. Mas ainda estamos muito atrás de países como Argentina cujo consumo é de 19,5 litros por pessoa por ano ou de Portugal onde consomem em média 71,5 litros.

7. Sucessão familiar

Apesar do aumento do retorno de jovens que saíram do interior, a permanência do jovem no campo dando continuidade a história da família e trazendo novas tecnologias para as produções é um fator desafiador na vitivinicultura; 

Independente dos desafios, a Serra Gaúcha possui OPORTUNIDADES que podem ser exploradas pelos vitivinicultores e grande potencial para competitividade no mercado, através da:

1. Boa adaptação de cultivares Vitis Vinifera a região

A região possui grande potencial para a produção de excelentes vinhos e espumantes, visto que, muitas variedades se adaptaram e ainda se destacaram, como o Riesling Itálico e a Moscato Branco nas condições específicas da Serra Gaúcha.

2. Cultura e tradição local

A Serra Gaúcha desde a chegada dos imigrantes possui a tradição do cultivo das vinhas, além de toda cultura, gastronomia e costumes típicos que são explorados cada vez mais pelo turismo nacional. Os produtores e filhos de produtores possuem conhecimento e experiência no cultivo acumuladas há mais de centena de anos. Além disso, conseguiram adaptar suas práticas de manejo e implementação dos parrerais em áreas de relevo inclinado e acidentado.

3. Profissionalização do cultivo e capacidade de tecnificação da produção

Através do uso de manejos e práticas cada vez mais tecnificadas pelos agricultores, é possível a obtenção de safras mais produtivas e com qualidade. O uso de máquinas elétrica para a poda, adaptação da colheita em Bins que jogam direto no caminhão, colheita mecanizada, pulverizadores eletrostáticos ou novos modelos mais eficazes foram melhorias que mudaram totalmente o dia a dia do produtor que estava acostumado a trabalhos 100% manuais.

4. Adoção de práticas que visem menor impacto da viticultura no meio ambiente

Cada vez mais é necessário o uso de  práticas que possibilitem cultivos mais sustentáveis, atraindo positivamente a atenção dos consumidores. Por exemplo, a roçada ecológica diminui a necessidade do uso de herbicidas e reaproveita a palhada para proteção do solo. Ou mesmo o uso de adubação verde na linha e nas entrelinhas, possibilita o menor emprego de herbicidas e melhoram as condições físico-químicas do solo.

5. Alcance de nichos diferenciados de consumidores

Atualmente consumidores buscam produtos sem aplicações de agrotóxicos ou que tenham seu uso reduzido,  causando o menor impacto possível no  meio ambiente e na saúde. Nesse cenário, certificações de produto orgânico ou Biodinâmica podem ser um grande fator de valorização do produto, que costuma custar de 100% a 200% a mais que um produto convencional.

6. Indicações Geográficas e de Procedência

As certificações agregam valor ao produto final e valorizam o terroir regional dos produtos, ao comprovar que existem propriedades físicas e químicas que entregam características de sabor únicos da região.

7. Rastreabilidade de todo o processo

O monitoramento de todos os caminhos, desde o plantio da uva até o momento do consumo, auxiliam na qualificação da produção brasileira para uma presença cada vez maior nos mercados internacionais.

Atualmente o consumidor está cada vez mais atento e preocupado com a origem do seu produto, e para atender essas questões, tanto governamentais, quanto do cliente, o produtor precisa se adequar e procurar soluções acessíveis, e um exemplo disso, é o caderno de campo, que além de atender as normas da Lei da Rastreabilidade, ajuda na gestão das atividades do vinhedo e eleva o conceito dos produtos no mercado.

Para facilitar o trabalho diário, o Caderno de Campo Digital da Elysios, possibilita o controle do cultivo na palma da mão, através do aplicativo no celular. Na plataforma Demetra, o produtor pode registrar as atividades do dia a dia, de maneira fácil e prática, coletando dados, gerando relatórios de produção e rastreando toda a origem do alimento.

Em Caxias do Sul, a família Venturin produz vinhos e uvas para consumo in natura com qualidade reconhecida, com mais de 80 prêmios conquistados. O proprietário, Maicol Venturin, utiliza desde 2019 a plataforma Demetra através do projeto com a Sicredi Pioneira, para auxiliar no controle dos seis hectares de parreirais. 

O produtor conta: “Eu comecei no papel há 15 anos, eu ia adicionando informação e já era muito papel para anotar. Depois, fui pra planilha no computador, mas tinha que digitar tudo. Agora eu transferi tudo pro aplicativo, ele dá uma série de cálculos instantâneos que eu não tinha como fazer. Tu coloca a informação do produto e ele já indica a carência e avisa quando faltam 2 dias, falta 1 dia”.

A Cooperativa Sicredi Serrana, desde 2019, vem desenvolvendo um projeto em parceria com Elysios, visando a inserção do Caderno de Campo Digital nas propriedades, buscando facilitar a adaptação às normas da rastreabilidade na cadeia da vitivinicultura e incentivar o produtor a se adequar aos novos desafios, interligando os diferentes processos, desde a produção da uva no pé até chegar ao consumidor final.

Assim, cada vez mais o crescimento da cadeia e a competitividade dos produtos, sejam eles vinhos, sucos, espumantes ou uvas para consumo, estão ligados a utilização de práticas sustentáveis e de segurança alimentar, garantindo que o produtor rural, o técnico, o profissional que trabalha na cadeia vitivinícola e o consumidor sejam beneficiados por processos e produtos cada vez mais seguros, não sendo apenas um diferencial, mas uma forma de promoção positiva do setor, fortemente ligada às exigências do mercado brasileiro e internacional.

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