A mulher do campo: ontem e hoje.

Recentemente comemoramos o Dia Internacional da Mulher Rural – 15 de outubro. A data foi criada em 1995 pela ONU com o intuito de conscientizar as pessoas sobre a importância do trabalho das mulheres no campo. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), elas são 45% da força de trabalho agrícola no Brasil e em outros países em desenvolvimento. Nos continentes africano e asiático essa porcentagem chega a 60%. 

As mulheres estão intimamente ligadas ao início do desenvolvimento da agricultura. Quando o cultivo de alimentos vegetais começou na história da humanidade, há cerca de 12 mil anos no período neolítico, eram as mulheres que cuidavam da horta e da lavoura enquanto os homens saíam para a caça ou criavam animais. As mulheres não apenas preparavam os alimentos para as refeições, mas também plantavam e colhiam. 

Infelizmente, com o tempo, sua importância foi sendo esquecida. Consequência de ideias como a de que o papel da mulher nas famílias do campo ou da cidade é apenas de cuidar da casa e dos filhos, de cozinhar e limpar. Tristes estatísticas também apresentadas pela FAO indicam a desigualdade social, política e econômica enfrentada pelas mulheres rurais: detêm a posse de apenas 35% das terras e recebem 10% dos créditos e 5% da assistência técnica.

Possuir menor força física não impede as mulheres de exercerem muitas atividades no campo. Principalmente nos dias de hoje, nos quais a tecnologia dita regras. A administração das novas tecnologias pode ser desempenhada por cérebros femininos e cérebros masculinos. Perante a inteligência artificial, eles são iguais. E as mulheres possuem a mesma capacidade de gerenciar propriedades e garantir lucros.

O último Censo Agropecuário feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicou um aumento de cerca de 50% na quantidade de propriedades rurais administradas por mulheres num período de 11 anos. Antes eram quase 13% e hoje são pouco mais de 18% das propriedades rurais brasileiras. São aproximadamente 945 mil mulheres que administram sozinhas as terras onde produzem e pelo menos outras 816 mil fazem o gerenciamento em conjunto com a família. Dentre os mais de 1,3 bilhão de pequenos agricultores que há no mundo todo, 43% são mulheres, segundo a ONU. 

A fase obscura está aos poucos sendo revertida. As mulheres continuam lutando por mais direitos que sejam coerentes às suas realidades/dificuldades, buscando o seu lugar ao lado dos homens para desempenhar as mesmas funções. As faculdades de agronomia, historicamente muito mais frequentadas por homens, experimentam agora um crescente número de estudantes do sexo feminino. Fora do meio acadêmico, existem inúmeros grupos e movimentos femininos. 

Nos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, surgiu em 2003 o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), que hoje se espalhou por todo o país. É um movimento bastante amplo, composto por mulheres que, de diferentes formas, produzem alimento e provêm o sustento de suas famílias. Assim temos, por exemplo, pequenas agricultoras, pescadoras artesanais, quebradeiras de coco no Nordeste, extrativistas, arrendatárias, assentadas e indígenas. 

Margarida Maria Alves lutava pelos direitos dos trabalhadores do campo e foi uma das primeiras mulheres a exercer um cargo de direção sindical em nosso país. Infelizmente foi assassinada em agosto de 1983, mas tem até hoje seus ideais conservados no movimento conhecido como Marcha das Margaridas, criado em 2000. Esta que é a maior mobilização de mulheres rurais do Brasil vai contra a violência praticada às mulheres e reivindica educação de qualidade e acesso a saúde e bens comuns como água e alimentos sem agrotóxicos. “Viemos aqui para mostrar que estamos atuantes e queremos respeito”, são as palavras da coordenadora geral Mazé Morais. 

Podemos perceber uma forte participação feminina devidamente reconhecida e também uma forte liderança feminina em propriedades rurais que produzem alimentos seguindo os moldes da produção orgânica. Este tipo de agricultura, que não se limita a eliminação do uso de defensivos químicos e fertilizantes sintéticos, possui uma forte questão social. Isso significa que, além de ser uma agricultura livre de resíduos potencialmente tóxicos, é também um meio de produção baseado num sistema justo para quem produz. 

Independentemente da forma como se aborda a presença feminina no campo, um sentimento que está presente na mente de muitas (ou de todas) mulheres é de que este assunto nem precisaria ser debatido se não fosse as desigualdades que acontecem nas relações interpessoais. Não apenas no campo, mas em todos os ambientes. A igualdade de gênero deveria ser algo natural. Tanto mulheres quanto homens deveriam ser respeitados em suas vontades. As dificuldades são grandes, mas a esperança está sempre presente em cada luta, em cada discurso, em cada ação. 

Conversamos com mulheres que estão no comando de produções rurais para que elas nos contassem um pouco de suas experiências na administração do próprio negócio e também qual o papel da tecnologia em suas rotinas. Todas são exemplos de superação das dificuldades e há um consenso de que o estudo deve ser valorizado e a tecnologia é uma importante ferramenta para garantir produções constantes e com qualidade.

Letícia Eicheberger

25 anos, fez faculdade de Design e tem histórico de produção agrícola na família.

Quando descobriu o interesse por trabalhar com o cultivo de morango, buscou informação e financiamento. Não tem filhos, é solteira e faz quase todas as atividades de manejo sozinha. Desde a limpeza das folhas das plantas e instalação de armadilhas para insetos até a colheita, preparação dos morangos e entrega aos clientes. E para ajudar a se organizar, utiliza o caderno de campo digital da plataforma Demetra. Ela refere a sua praticidade, por poder utilizá-lo através do celular enquanto está em outros compromissos fora da propriedade rural.

Letícia está ciente de que a tecnologia tem uma importância muito grande, que vai além da plataforma Demetra. A automação a permite manter o controle da produção enquanto sai para fazer entregas ou compra de insumos, por exemplo. Ou seja, a tecnologia representa autonomia. Os sensores também a ajudam a saber como estão as condições ambientais no cultivo, como a umidade no interior dos slabs, que contêm o substrato onde crescem os morangueiros.

As coisas mudaram bastante desde o início, quando era pouco conhecida e procuravam por seu pai para falar sobre os morangos. Hoje dá entrevistas e tem papel de destaque na sua região. E pensa: “se hoje posso trabalhar como produtora, ser a protagonista da minha história, administrar meu próprio negócio […] se hoje eu posso ter essa voz […] com certeza vem da luta de muitas mulheres antes de mim que foram conquistando o nosso espaço”. E seu conselho é: “continuem estudando, tudo o que vocês aprenderem é importante”.

Maria Bastos Justo

de Três Forquilhas, é produtora rural há 8 anos e cultiva morango, aipim, milho e hortaliças, todos orgânicos.

Sua propriedade é pequena e ela comercializa seus produtos na praia. Há 5 anos conquistou a certificação, o que lhe abriu portas e garantiu bastante trabalho e melhor lucro. Depois que fez o curso de produção de morangos orgânicos oferecido pela Emater, viu melhorias na qualidade dos frutos, principalmente em seu aspecto físico.

A necessidade de utilizar equipamentos eletrônicos para a realização do curso fez Maria aprender a lidar com a tecnologia, da qual ela tira proveito atualmente. As redes sociais a ajudam a manter sua clientela. E o seu certificado de produtora orgânica, que está sempre no carro que utiliza para fazer as entregas, a ajuda a obter novos clientes.

Em sua trajetória de vida enfrentou problemas no casamento, como agressões verbais e irregularidades no pagamento de pensão após a separação. Atualmente está solteira e mora com suas netas. Durante a conversa, enfatiza que não precisa de homem algum para desenvolver qualquer atividade em seus cultivos. A separação foi traumática, mas ela tira dessa fase diversas lições. “Eu acho que a mulher não precisa se sentir inferior, ela é bem mais superior que os homens […] quando alguém diz para gente ah tu não consegue, aí tu tem que ir lá e mostrar que tu consegue”.

Aline Brenner

31 anos, abriu a Quitanda Morangos e Cia em parceria com sua cunhada.

Ao contrário de Letícia e Maria, é casada. E tem filhos. Nunca sofreu com desigualdade de gênero e sempre foi respeitada por sua família. Sempre teve convicção de que o negócio que desejava desenvolver seria rentável, pois estudou cuidadosamente para tomar suas decisões.

E em suas atividades, a tecnologia também tem seu espaço. “Acredito que hoje a tecnologia me ajuda a criar um histórico, a criar uma organização rápida”. Ela cita a vantagem de ter acesso de um jeito fácil a informações como as condições climáticas de épocas anteriores e o histórico de seu faturamento e dos melhores meses do ano para cultivar. “Se não tivesse o aplicativo para me ajudar, talvez eu nem tivesse dados desde o início do trabalho anotados”. E seu conselho não é diferente: “Estudem”.

Márcia de Melo Livon

Reside em Matelândia, no Paraná. Ela e seus sócios produzem brássicas e outras hortaliças folhosas.

Ela desempenha as funções relacionadas à gestão financeira e da produção e participa do planejamento estratégico. Sempre teve voz ativa, tanto nos negócios quanto na família, e quando alguém pede pelo patrão ela responde: “aqui não existem patrões, nós somos como uma cooperativa e todos tem suas funções e importância”.

Para Márcia, a tecnologia melhora o seu trabalho, tornando-o mais eficiente e gerando mais resultados. A tecnologia contribui para aumentar a capacidade de produção e a capacidade de controlá-la. E também muito importante: “servimos de inspiração para que mais mulheres estejam a frente e busquem inovar e melhorar suas atividades”. Seu conselho para outras mulheres também é sobre estudar: “quando temos embasamento na nossa fala às pessoas param para te ouvir, busquem ser inovadoras mesmo em questões consideradas simples, pois tudo pode ser melhorado”.

Micheli Bresolin

Micheli Bresolin, de Três Forquilhas (RS), presidente da Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas (Coomafitt).

Sua família produz bananas orgânicas. Neste caso, a tecnologia teve papel fundamental. “Todas as informações das áreas de produção, todas as informações dos agricultores quando precisamos acessar da cooperativa, tudo mudou para melhor, acho que até a forma de pensar e nos posicionar”. E encerra: “as mulheres da nova geração que não desistam da luta jamais!”.

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