7 problemas do excesso na fertilização de cultivos

Todo sabemos que nutrientes são essenciais para o desenvolvimento das plantas. No entanto, a fertilização em excesso pode ocasionar problemas no cultivo, prejuízos ao solo e ao meio ambiente, além de representar custos desnecessários. Portanto, independente da fonte do fertilizante (orgânico ou mineral), é importante ter em mente que “a diferença entre o remédio e o veneno está na dosagem”.

Dependendo do caso, adubações em excesso podem causar danos que vão além da queda na produtividade da safra atual, podendo comprometer as safras seguintes e a própria área de cultivo. Além disso, a resolução do problema pode custar muito caro ou demandar muito tempo para ser surtir efeito.

Veja quais são os principais problemas causados pelo excesso de nutrientes na adubação:

1 – Antagonismo e competição

O desequilíbrio nutricional no solo pode promover dificuldades para as plantas na absorção de nutrientes. Em outras palavras, o excesso de um nutriente no solo pode promover a redução na absorção de outros, ocorrendo um fenômeno conhecido como antagonismo. Ou então, os nutrientes podem competir pelo mesmo sítio de absorção e aquele que estiver em excesso pode bloquear a absorção dos outros, através da chamada inibição competitiva.

O efeito de antagonismo é notadamente observado entre os nutrientes potássio (K), cálcio (Ca) e magnésio (Mg). O teor destes elementos no solo precisa estar em equilíbrio para garantir a plena absorção de cada um deles. Adubações potássicas muito pesadas reduzem a absorção de Ca e Mg pelas plantas, assim como o aporte de grandes quantidades de Ca no solo pode inibir a absorção de K e Mg. Destaca-se também o antagonismo causado pelo excesso de fósforo (P) em relação ao boro (B) e zinco (Zn), que são micronutrientes importantes especialmente para frutíferas como a videira.

Na tabela abaixo, observa-se a interação positiva (+) e negativa (↓) da adição de um nutriente no solo sobre o efeito no teor foliar dos outros nutrientes.

Sinergia e antagonismo na absorção de nutrientes pela planta. Autor: Malavolta, 1987.
Sinergia e antagonismo na absorção de nutrientes pela planta. Autor: Malavolta, 1987.

2 – predisposição à doenças

Uma planta com deficiência ou excesso nutricional geralmente é mais vulnerável a doenças do que uma planta em condições nutricionais ótimas. Logo, o equilíbrio dos nutrientes é importante, pois confere maior resistência contra ataque de patógenos

Alguns nutrientes, como o cálcio e o potássio, podem enrijecer os tecidos e torná-los mais resistentes. O nitrogênio, por sua vez, quando aportado em excesso, torna os tecidos mais sensíveis ao ataque de patógenos. Este dano causado pelo excesso de N pode ser justificado pela redução na síntese de compostos fenólicos como as fitoalexinas e lignina, o que torna a planta mais tenra e menos resistente às infecções fúngicas (Marschner, 1995).

Conforme apresentado anteriormente, o desequilíbrio nutricional pode causar problemas de absorção de determinados nutrientes, como exemplo do antagonismo do K (potássio) sobre Ca (cálcio) e Mg (magnésio). Como o cálcio é importante para a composição da parede celular, conferindo estabilidade e resistência à estrutura, a deficiência desse elemento diminui a capacidade de defesa da planta contra patógenos, onde a ação de enzimas liberadas pelos fungos se torna facilitada.

Esporo de fungo germinado com haustórios projetadas para o interior do mesófilo de folha. Fonte: CEPA; elaborado por USP/Univesp

A condição de maior susceptibilidade também é observada no déficit de outros elementos como o K, que pode ser causado pelo excesso de Ca e Mg. Neste caso, a deficiência de K promove aumento na concentração de aminoácidos e açúcares solúveis na folha, contribuindo para a germinação de esporos e crescimento dos fungos. Na falta de potássio também ocorre a diminuição da velocidade de cicatrização de injúrias, menor lignificação e menor espessura da cutícula e parede celular, reduzindo a resistência à penetração dos patógenos.

3 – Excesso de vigor

Adubações com excesso de nitrogênio podem promover aumento demasiado de vigor vegetativo nas plantas, resultando em desbalanço entre estruturas vegetativas e reprodutivas. Ou seja, a planta acaba produzindo muitos ramos e folhas, com maior vigor, e dá menos prioridade para formação de flores, frutos, tubérculos ou raízes tuberosas. Além disso, pode haver prolongamento da fase vegetativa e atraso na entrada do estádio reprodutivo.

Estes sintomas são observados especialmente em frutíferas e plantas onde o produto comercial são raízes ou tubérculos, como os casos da batata e mandioca. Em estudos realizados com macieiras, observou-se que o teor excessivo de N em plantas jovens retardou a entrada das plantas em produção e deprimiu a formação de estruturas de órgãos reprodutivos, diminuindo, conseqüentemente, o número de frutos por planta (Iuchi et al., 2001). Em uvas viníferas, observa-se queda na qualidade dos frutos com excesso de nitrogênio na adubação.

4 – Estresse por salinidade

Alguns fertilizantes, quando aplicados em grande quantidade ou muito concentrados na base da planta, aumentam a salinidade do ambiente radicular e levam a planta a condições de estresse. Podem ocorrer dois tipos de danos por elevada salinidade: o estresse osmótico, onde a planta sente como se estivesse necessitando de água, e o estresse iônico, onde os elementos em excesso causam toxidez. No primeiro caso, a planta tem dificuldade de absorver água pelas raízes e acaba adaptando rapidamente seu metabolismo para uma condição de estresse hídrico, reduzindo o crescimento da parte aérea. Em casos mais extremos, a planta pode desidratar até sofrer danos mais sérios.

Necrose nas margens das folhas de morango devido à alta salinidade da solução nutritiva. Foto: Maria Lopes Rosa.

Os fertilizantes possuem diferentes níveis de salinidade, conforme sua formulação. Na tabela a seguir, apresenta-se alguns dos principais fertilizantes minerais utilizados e seus respectivos índices salinos, condutividade elétrica e índice de acidez e alcalinidade.

(1) Índice salino é o valor que indica o aumento da pressão osmótica de uma solução, produzido por determinado fertilizante, em comparação com nitrato de sódio (valor 100). (2) Condutividade elétrica é a capacidade de uma solução conduzir corrente elétrica devido à presença de íons dissolvidos, indicando indiretamente a salinização do solo. O valor apresentado foi determinado na concentração de 1 g de fertilizante por litro de água. (3) Índices de acidez e de alcalinidade representam uma previsão das alterações que serão causadas pelos fertilizantes no pH do solo. Sinal + (acidez): kg de CaCO3 necessário para neutralizar 100 kg de fertilizante. Sinal - (alcalinidade): kg de CaCO3 “adicionados” pela aplicação de 100 kg de fertilizante. Fonte: TRANI e CARRIJO (2004).

A cultura do morangueiro, que é muito sensível à elevada salinidade, apresenta sintomas de injúria como necrose das folhas, folhas frágeis e quebradiças, podendo ocorrer morte de raízes. A imagem a seguir ilustra os sintomas descritos:

5 – Toxidez

Alguns nutrientes, quando absorvidos em excesso, podem causar desequilíbrio e prejuízos ao metabolismo da planta, interferindo nos processos bioquímicos que ocorrem no seu interior. Com o metabolismo afetado, as funções vitais são prejudicadas e os danos podem refletir na produtividade e sanidade das plantas.

O boro é um dos nutrientes que causa danos por toxidez quando está presente em grandes quantidades, podendo afetar culturas como o cafeeiro e o morangueiro. Os sintomas apresentados na cultura do morangueiro podem ser a descoloração e necrose das bordas das folhas, conforme apresentado na imagem a seguir:

Sintomas de toxidez por Boro na cultura do morangueiro. Fonte: AgroPorticus

6 – elevação do ph

Alguns fertilizantes, como a cama de poedeiras e compostos de restos vegetais, têm o potencial de neutralizar a acidez do solo exercendo o efeito de calagem. Desta forma, o uso exagerado e contínuo de determinados fertilizantes pode promover o aumento do pH a níveis acima do que é desejado, causando a indisponibilidade de alguns micronutrientes como o ferro, cobre, manganês e zinco.

Na tabela a seguir estão apresentadas as condições de disponibilidade dos nutrientes para as plantas, conforme os níveis de pH do solo.

Pulverizações com diferentes tamanhos de gota sobre papel hidrossensível. Fonte: Adaptado de WOLF, T. Agriculture and Agri-food Canada Research Center.

7 – meio ambiente

Com a fertilização, busca-se atender as necessidades nutricionais das plantas através do suprimento de nutrientes ao solo.  De toda carga aportada, uma parte é incorporada ao solo e posteriormente absorvida pela planta, enquanto a outra parte pode ser perdida para o ambiente através da volatilização, escoamento superficial e/ou lixiviação.

Do ponto de vista ambiental, o escoamento superficial pode conduzir porções de solo carregadas com fertilizantes e defensivos para arroios ou rios que estão próximos da área de cultivo, enquanto a lixiviação pode conduzir nutrientes como o nitrogênio para os lençóis freáticos. Em ambos os casos, a contaminação de recursos hídricos pode causar problemas para todo o ecossistema deste meio, inclusive para os seres humanos que utilizam a água. Com o excesso de adubação, a porção de adubo perdida para o ambiente é maior, aumentando os riscos e a gravidade de contaminações ambientais.

conclusão

A adubação é uma das etapas mais importantes no cultivo, e portanto, deve ser realizada corretamente. Por isso, na hora de calcular a dose de fertilizantes que será aplicada, é importante consultar materiais de apoio como manuais de adubação e recomendações de institutos de pesquisa, bem como consultar um agrônomo.

O parcelamento da adubação em doses espaçadas é uma medida interessante para evitar desperdícios, desequilíbrios e garantir bom aproveitamento dos nutrientes pela planta. Além disso, é importante monitorar frequentemente as condições nutricionais do cultivo através de análises de solo e tecido vegetal.

É importante ressaltar que, mesmo que fertilizantes orgânicos normalmente possuam concentração menor de nutrientes quando comparados a fertilizantes minerais, eles devem ser utilizados na dose correta, não excedendo as quantidades de nutrientes preconizadas para a cultura. Mesmo que o produtor rural consiga dejetos animais a baixo custo, a aplicação de doses acima do que é necessário representar riscos à eficiência do cultivo e de contaminação do ambiente.

Todo este controle necessário pode ser feito através do Caderno de Campo – Demetra, acesse no nosso site para conhecer mais!

Por Gabriel Wathier, Consultor e pesquisador de agronomia Elysios.

Referências

DUARTE, V. Sintoma foliar de salinidade em morango. Agriporticus. Disponível em: http://www.agronomicabr.com.br/agriporticus/detalhe.aspx?id=173. Acesso em: 08 out 2019.

IUCHI, V.L.; NAVA, G.; IUCHI, T. Disturbios fisiologicos e desequilibrios nutricionais em macieira. Florianopolis: Epagri / Jica, 2001. 74p.

MARSCHNER, H. Mineral nutrition of higher plants. San Diego: Academic Press, 1995. 888p.

SILVEIRA, R. L. V. A; HIGASHI, E. N. Aspectos nutricionais envolvidos na ocorrência de doenças com ênfase para o eucalypto. Piracicaba: IPEF, 2003. 13p. (IPEF, Circular técnica n. 200). Disponível em: <https://www.ipef.br/publicacoes/ctecnica/nr200.pdf>. Acesso em 10 out 2019.

Trani, P. E. Fertilizantes: cálculo de fórmulas comerciais. Campinas: Instituto Agronômico, 2011. 29p. online (Série Tecnologia APTA. Boletim Técnico IAC, 208). ISSN: 1809-7936 1. Disponível em: <http://www.iac.sp.gov.br/publicacoes/publicacoes_online/pdf/boletimtecnicoIAC-208.pdf>. Acesso em 10 out 2019.

ZAMBOLIM, L. VALE, F. X. R. do. COSTA, H. Nutrição contra doenças. UFV, Incaper. 2001. Disponível em:  (https://www.grupocultivar.com.br/ativemanager/uploads/arquivos/artigos/gc29_nutricao.pdf). Acesso em 10 out 2019.

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