Agricultura Familiar

7 dicas sobre a importância das boas práticas agrícolas na agricultura familiar

O que são Boas Práticas Agrícolas?

Escrito por: Elisandra Pradella, MSc. em Recursos Genéticos Vegetais

Boas práticas agrícolas (BPAs) consistem em um conjunto de princípios, tecnologias, normas, práticas e recomendações técnicas que devem ser aplicadas desde a produção de insumos agrícolas até o transporte dos alimentos e entrega dos produtos ao consumidor.

As BPAs surgiram diante da crescente necessidade de garantir a qualidade e a segurança dos alimentos. Alimentos seguros são alimentos adequados para o consumo humano, ou seja, NÃO apresentam componentes biológicos (bactérias, vírus) ou substâncias químicas (qualquer resíduo de produto fitossanitário acima dos limites permitidos pela Anvisa) que possam causar danos à saúde.

As BPAs melhoram a saúde e a qualidade de vida dos agricultores e consumidores, promovem o uso sustentável de recursos naturais e a proteção da biodiversidade. Veja alguns benefícios das BPAs na imagem a seguir:


Benefícios da adoção de Boas Práticas Agrícolas. Fonte: FAO, 2007.
Benefícios da adoção de Boas Práticas Agrícolas. Fonte: FAO, 2007.

A seguir, conheça um pouco mais sobre algumas BPAs e sua importância para a obtenção do Certificado de Produção Integrada e certificação Global G.A.P.:

1. Manejo integrado de pragas e doenças

O controle de pragas e doenças baseado no manejo integrado não visa eliminar os agentes causadores de danos (insetos, fungos, bactérias, nematoides), mas reduzir sua população a níveis suficientes para manter populações de inimigos naturais na lavoura, restaurando assim, o  equilíbrio natural que havia sido desfeito pelo uso de produtos fitossanitários altamente tóxicos e muitas vezes não registrados para a cultura.

No manejo integrado, a tomada de decisão é baseada na mortalidade natural, no nível de controle (densidade populacional na qual os métodos de controle devem ser aplicados), no monitoramento e nas características da praga/doença. Além disso prioriza-se o uso de sementes resistentes, a rotação de culturas, o uso de barreiras físicas como telas, o biocontrole e como última alternativa, o controle químico. Veja na imagem abaixo, os alicerces e pilares do manejo integrado.


Alicerces e pilares que sustentam o Manejo Integrado. Fonte: Adaptado de Embrapa, 2014.
Alicerces e pilares que sustentam o Manejo Integrado. Fonte: Adaptado de Embrapa, 2014.

2. Sistema plantio direto

O sistema plantio direto (SPD) é um sistema de manejo do solo que vem sendo bastante difundido no cultivo de hortaliças. Os três princípios fundamentais do SPD são: manutenção da cobertura do solo durante todo ano, revolvimento mínimo do solo, restringindo-se a linha de plantio e rotação de culturas.

Estes princípios favorecem o aumento da matéria orgânica no sistema, que por sua vez, melhora as propriedades físicas, químicas e biológicas do solo, resultando no controle da erosão e no aumento da produtividade. Além disso, o SPD reduz a necessidade por máquinas e equipamentos, otimiza o uso de fertilizantes, diminui a necessidade por irrigação e favorece o controle biológico de pragas, doenças e plantas espontâneas.

3. Cultivo protegido

O cultivo protegido é um sistema de produção agrícola especializado, que possibilita controlar fatores como temperatura, umidade, irrigação, nutrição e obter condições ideais de cultivo, resultando em produtos padronizados, de elevada qualidade e alto valor agregado.

Podemos dizer que o cultivo protegido apresenta uma relação direta com a sustentabilidade da produção, pois reduz significativamente o uso de produtos fitossanitários durante a produção, o que diminui o custo de produção e melhora a qualidade de vida do produtor, além de fornecer alimentos seguros ao consumidor

4. Cuidados com a água de irrigação

A disponibilidade e a qualidade da água de irrigação são a chave para bons rendimentos na horticultura. A água de irrigação dever ser limpa, livre de contaminantes. Quanto ao aspecto químico, são utilizados três critérios básicos para medir a qualidade da água para irrigação: a salinidade, a sodicidade (elevada concentração de sódio) e a toxicidade.

A salinidade é medida através condutividade elétrica. Deve-se considerar a tolerância à salinidade específica de cada cultura, pois valores acima desse limite tolerável podem dificultar a absorção de água pelas e prejudicar seu desenvolvimento. Já a sodicidade pode contribuir para a deterioração das propriedades físico-químicas do solo, aumentando a compactação e dificultando a infiltração da água.

A toxicidade diz respeito à presença de íons, principalmente cloro, sódio e boro, que são absorvidos pelas raízes e ficam acumulados nas folhas, prejudicando o crescimento e desenvolvimento das culturas.

A tabela a seguir mostra os principais parâmetros analisados para avaliar a água de irrigação:


Análises de laboratório necessárias para avaliar a água para irrigação. Fonte: Embrapa, 2010.
Análises de laboratório necessárias para avaliar a água para irrigação. Fonte: Embrapa, 2010.

A qualidade da água de irrigação está diretamente relacionada com a eficiência do sistema de irrigação, que por sua vez influencia na produtividade e na qualidade da produção. Ainda que o sistema de irrigação apresente um sistema de filtros, pode haver entupimentos de origem física (presença de sedimentos sólidos), química (formação de precipitados) e biológica (desenvolvimento de colônias bacterianas).

Portanto, uma das medidas mais econômicas para prevenir entupimentos consiste em analisar a água e projetar o sistema de filtros com base na qualidade da água.

Na tabela a seguir, podemos diferentes níveis de restrição de uso da água para irrigação, com base em características físicas, químicas e biológicas.


Classificação da água em função da restrição de uso na irrigação localizada. Fonte: Embrapa, 2009.
Classificação da água em função da restrição de uso na irrigação localizada. Fonte: Embrapa, 2009.

5. Colheita e pós-colheita

A colheita de vegetais deve ser realizada nos horários mais frescos do dia, utilizando-se caixas e equipamentos limpos e desinfetados. Os produtos precisam ser transportados o mais rápido possível para o local de armazenamento ou processamento, que deve ser fresco e limpo.

Após a colheita, as hortaliças devem ser devidamente lavadas, secas, classificadas e acondicionadas em embalagens, visando a maior durabilidade pós-colheita. Assim, é possível reduzir as perdas e contribuir com a segurança alimentar.

6. Rastreabilidade

Além de ser Lei para muitos produtos vegetais (veja O que é e como funciona a rastreabilidade de alimentos!), pode-se dizer que rastreabilidade é uma forma de comprovar que as BPAs, como as citadas anteriormente, estão sendo adotadas por todos os entes da cadeia produtiva de alimentos. Por meio de um sistema de rastreabilidade, é possível informar ao consumidor exatamente a origem dos alimentos, bem como todas as atividades de manejo, fertilizantes e produtos fitossanitários utilizados durante o processo de produção.

Assim, o produtor pode garantir ao consumidor que a colheita do seu produto respeitou o período de carência dos produtos químicos, que foram adquiridos produtos químicos registrados e recomendados por meio do receituário agronômico, que o manejo integrado foi empregado no controle de pragas e doenças, que foram adotadas práticas conservacionistas do solo durante o cultivo e que os produtos foram higienizados de forma correta após a colheita.

7. Certificado de produção integrada

A Produção Integrada (PI) é uma estratégia global que visa a qualidade dos alimentos, rentabilidade das culturas, proteção dos recursos naturais a longo prazo e o bem-estar social dos produtores rurais. A adoção de BPAs é o primeiro passo para quem deseja aderir à PI e receber o selo oficial “Brasil Certificado”, que atesta a Agricultura de Qualidade Certificada.

O próximo passo consiste em conhecer e implementar as Normas Técnicas Específicas (NTE) para a cultura que se deseja certificar. As NTE são criadas com a participação dos órgãos de pesquisa, como EMBRAPA, órgãos de assistência técnica, além dos próprios produtores e estabelecem as práticas que deverão ser adotadas no processo de produção, incluindo a obtenção de material propagativo, manejo do solo, manejo integrado, produtos fitossanitários registrados permitidos, recursos hídricos, colheita e pós-colheita, análise de resíduos, rastreabilidade e caderno de campo, entre outras informações pertinentes.

A existência de NTE é uma característica que diferencia a PI de outros sistemas de produção. Outro ponto exclusivo da PI é que deve haver um responsável técnico (Engenheiro Agrônomo ou Técnico Agrícola) com treinamento específico no sistema de PI da cultura.

Após implementar as BPAs e as NTE, o produtor rural poderá ter sua propriedade auditada por certificadoras acreditadas pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (INMETRO). Veja na imagem abaixo a relação entre as Boas Práticas Agrícolas e o sistema de produção.


Boas Práticas Agrícolas: chave central para uma produção sustentável e de qualidade
Boas Práticas Agrícolas: chave central para uma produção sustentável e de qualidade

Resultado: Certificação GlobalG.A.P.

Somente com a adoção de BPAs, o produtor poderá solicitar a certificação GlobalG.A.P. (GAP = Good Agricultural Practices), comprovando que sua propriedade agrícola segue padrões de segurança do alimento e de qualidade reconhecidos mundialmente. Esta certificação possibilita o acesso do produtor a novos mercados nacionais e internacionais.

Como a Elysios pode ajudar?

Em suma, as BPAs visam viabilizar economicamente o processo de produção de alimentos, levando em consideração a preservação ambiental e a qualidade de vida das populações rural e urbana.

É importante ressaltar que a adoção dessas práticas é um requisito para a obtenção do Certificado de Produção Integrada e da Certificação GlobalG.A.P.

O Demetra Caderno de Campo Digital foi pensado e desenvolvido para facilitar a adoção de BPAs pelos produtores. Através dele, produtores e técnicos podem registrar todas as atividades agrícolas, desde o plantio, monitoramentos, manejos, aplicações e colheitas, de forma simples e prática. Além disso, o sistema permite configurar e imprimir etiquetas, em conformidade com as normas de rastreabilidade, veja o exemplo abaixo:


Etiqueta de rastreabilidade Elysios
Etiqueta de rastreabilidade Elysios

Referências

Boas práticas agrícolas: Hortaliças Folhosas. Emater-DF, 2016.

Como Aderir à Produção Integrada. MAPA, 2020

Entupimento de emissores em irrigação localizada. Embrapa, 2009.

Guidelines ”Good Agricultural Practices for Family Agriculture”. FAO, 2007.

Manejo integrado de pragas do tomateiro para processamento industrial. Embrapa, 2014.

Normas Técnicas para Produção Integrada. MAPA, 2020.

O que é Produção Integrada?. MAPA. 2020.

Qualidade da Água de Irrigação Água de Irrigação. Embrapa, 2010.

SILVA, L. S.; CAMARGO, F. A. O.; CERETTA, C. A. Composição da fase sólida orgânica do solo. In: MEURER, E. J. Fundamentos de Química do Solo. 6. ed. Porto Alegre, 2017. p. 61–84.

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